Cirurgia refrativa a laser, em linguagem de gente
Se você usa óculos ou lentes para miopia, hipermetropia ou astigmatismo, a cirurgia refrativa a laser corrige o grau remodelando a curvatura da córnea, a “lente” transparente da frente do olho. O objetivo é que a luz volte a focar exatamente na retina, dando visão nítida sem acessórios. O procedimento é rápido, feito com anestesia em colírio e costuma durar poucos minutos por olho. Não é “milagre”, nem serve para todo mundo, mas quando bem indicada oferece alto índice de satisfação e segurança. A seguir, explico quem pode fazer, quais exames são essenciais e como é a recuperação. Sem promessas milagrosas. Só.
Como o laser corrige o grau, passo a passo
Na miopia, o foco cai antes da retina; no hipermétrope, atrás; no astigmata, a curvatura é irregular, gerando dois focos. O laser esculpe micrômetros da córnea para ajustar sua curvatura e alinhar o foco. Antes, o aparelho mapeia sua córnea em milhares de pontos. Depois, com o olho anestesiado, o feixe atua onde foi planejado pelo médico. É indolor, mas pode haver pressão e luzes fortes. Existem duas famílias de lasers: femtosegundo, que corta ou separa camadas com precisão, e excimer, que “lixa” controladamente o tecido. A combinação varia conforme a técnica escolhida. Todo o disparo é guiado por rastreadores que acompanham micro movimentos do olho, pausando se você mexer demais. Por fim, aplica-se colírio, proteção e orientações. Você sai vendo, porém com turvação inicial que melhora a cada dia. O planejamento é personalizado, baseado em exames e no seu objetivo.
Quem pode fazer: critérios simples de candidatura
A regra geral: maiores de 18 anos, com grau estável por ao menos 12 meses e córnea saudável. Miopia costuma ser tratada até cerca de -8 a -10 dioptrias, hipermetropia até +4 ou +5, e astigmatismo até 5, variando segundo a espessura e o formato da córnea. É preciso ter expectativa realista: a meta é reduzir dependência de óculos; perfeição 20/20 nem sempre acontece. Profissões com alto risco de impacto ocular podem preferir técnicas sem flap. Gestantes e lactantes devem adiar. Usuários de lentes de contato precisam suspender antes dos exames: gelatinosas por 7 a 14 dias, rígidas por 3 a 4 semanas, para não “amassar” a córnea e distorcer medidas. Quem tem olho seco moderado ou leve pode operar, desde que estabilizado. Acima dos 40, conversa-se sobre presbiopia: será necessário óculos para perto, monovisão ou outra estratégia. Se houver catarata inicial, outras alternativas podem trazer resultado melhor. Avalie isso com seu médico.
Exames indispensáveis antes de operar
O pacote de avaliação inclui: refração detalhada, topografia e tomografia de córnea, paquimetria (espessura), teste de olho seco, diâmetro pupilar em baixa luz e mapeamento de retina quando indicado. A topografia e a tomografia procuram sinais de ceratocone ou fraquezas estruturais que aumentariam o risco de ectasia, uma deformação tardia da córnea. A paquimetria indica quanto tecido pode ser removido com segurança. Também se mede a pressão intraocular e a dominância ocular, útil para monovisão. Em alguns casos, a aberrometria ajuda a personalizar o tratamento para reduzir halos e glare. Para garantir precisão, siga a pausa nas lentes e evite colírios vasoconstritores nos dias prévios. Leve óculos atualizado, anote seu histórico e traga perguntas. Se qualquer exame acender uma “luz amarela”, o melhor é ajustar a técnica, adiar, tratar olho seco ou simplesmente não operar. Segurança vem antes do “pra ontem”. Essa triagem reduz surpresas e aumenta a chance de você sair feliz, sem efeitos colaterais relevantes e com visão estável no longo prazo. Mesmo.
Técnicas: PRK, LASIK e SMILE em comparação clara
PRK: a camada superficial da córnea (epitélio) é removida e o excimer atua diretamente na superfície. Vantagens: não cria flap, mantém mais estrutura, indicado para córneas mais finas e para quem pratica esportes de contato. Desvantagens: desconforto nos primeiros dias, visão oscilante na primeira semana e retorno mais gradual. LASIK: o femtosegundo cria um flap finíssimo; o excimer modela o estroma; o flap é reposicionado. Vantagens: recuperação rápida, pouca dor, estabilidade mais precoce. Desvantagens: risco raro de deslocamento do flap em traumas e maior sensibilidade a olho seco no início. SMILE: o femtosegundo recorta um lentículo dentro da córnea e o remove por microincisão, sem flap. Vantagens: preserva nervos, tende a menos olho seco e permite retorno rápido. Desvantagens: ajustes finos e hipermetropia ainda têm limitações em alguns centros. Resultado visual: quando bem indicadas, as três alcançam previsibilidade e segurança altas, inclusive no laser para miopia. A escolha depende da anatomia da sua córnea, do seu grau, estilo de vida e da experiência da equipe. Não existe “melhor absoluta”; existe a melhor para o seu caso. Alguns centros oferecem tratamentos guiados por frente de onda e por topografia, úteis para córneas irregulares ou pupilas grandes, reduzindo brilho noturno e halos. Converse sobre disponibilidade, custo adicional e real benefício no seu perfil. Sempre.
Quando não operar: contraindicações mais comuns
Ceratocone diagnosticado ou suspeito, córnea muito fina para o seu grau, ectasias, cicatrizes centrais, infecções ativas e olho seco grave são situações que costumam contraindicar o laser. Doenças autoimunes descompensadas, diabetes sem controle e uso de isotretinoína pedem cautela ou adiamento. Gravidez e amamentação alteram estabilidade e ressecamento ocular. Pupilas muito grandes podem aumentar halos noturnos, exigindo estratégia específica. Expectativas irreais, profissão com risco frequente de trauma e dificuldade de seguir cuidados também pesam contra. Se houver glaucoma, catarata relevante ou presbiopia incômoda, discute-se alternativa: óculos, lentes de contato, anel intracorneano, implante de lente intraocular fácica ou troca de cristalino, conforme idade e exames. A decisão segura é sempre individual, baseada em evidências. Atualizadas.
Riscos, efeitos colaterais e como minimizá-los
Complicações graves são raras, mas existem. Infecção, inflamação intensa e ectasia são as mais temidas. Mais comuns: olho seco temporário, halos e glare à noite, hipercorreção ou subcorreção leves e regressão de parte do grau, especialmente em miopias altas. Em LASIK, problemas do flap são possíveis; em PRK, haze pode ocorrer se a cicatrização for exuberante; em SMILE, resíduos do lentículo podem exigir limpeza. Como reduzir riscos: escolha clínica com exames completos, cirurgião experiente, técnica apropriada para sua córnea, pausar lentes antes dos exames e seguir à risca as orientações. No pós-operatório, use colírios conforme prescrito, não coce, evite piscina por 15 dias, maquiagem nos olhos por uma semana e impactos. Retorne se houver dor, piora rápida da visão ou secreção. Óculos escuros ajudam no conforto, e lubrificantes preservativos-free aceleram a reabilitação. Hidrate-se, durma bem e siga a agenda de revisões. Nada de invencionices.
Recuperação: linha do tempo e retorno às atividades
Logo após, visão turva e sensibilidade à luz são esperadas. No LASIK e no SMILE, muitos já trabalham em 2 a 3 dias; no PRK, reserve de 4 a 7 dias. Cronograma típico: primeiro dia, muito repouso e colírios; segunda a quarta, melhora progressiva; fim da primeira semana, vida quase normal; de 1 a 3 meses, estabilização completa. Exercícios leves após 3 a 5 dias; corrida após 7; natação, mar e piscina, só depois de 15 dias; esportes de contato, 3 a 4 semanas, com proteção. Direção: quando a visão estiver segura no teste prático, geralmente em poucos dias, conforme técnica. Telas podem cansar no começo, então faça pausas e lubrifique. Coceira é normal, mas resista e use compressas frias. Dormir com escudos nos primeiros dias ajuda a proteger. Não interrompa colírios antes da hora, mesmo que esteja muito bem. Óculos escuros reduzem incômodo ao sol. Hidrate o ambiente, prefira ambientes limpos, evite fumaça e poeira. Siga o calendário de revisões combinadas.
Resultados, estabilidade e necessidade de retoque
A maioria atinge visão para dirigir sem óculos. Em graus baixos e médios, a precisão é muito alta; em miopias altas ou hipermetropias, pode haver pequeno resíduo. Retoque é possível após estabilização e exames de segurança, quando há tecido disponível. O grau pode mudar com o tempo por questões naturais do olho, não por “vicio” do laser. Aos 40+, a presbiopia surge para todos, operados ou não. Manter consultas periódicas, cuidar do olho seco e proteger contra UV ajudam a preservar a qualidade visual. Converse sobre metas realistas e margem de segurança residual. Sempre.
Custos, escolha da clínica e mitos comuns
Valores variam conforme técnica, tecnologia, equipe e cidade. Desconfie de pacotes milagrosos e de promessas de “grau zerado garantido”. Segurança custa: bons exames, lasers de última geração, sala adequada e equipe treinada. Pergunte sobre equipamentos, manutenção, experiência do cirurgião, protocolos de infecção e política de retoque. Compare orçamentos pelo conteúdo, não só pelo preço final. Mitos comuns: “dói muito” — desconforto é controlável; “laser queima o olho” — a energia é fria e precisa; “não posso operar depois dos 40” — há alternativas; “nunca mais terei grau” — o olho muda com a idade. Se o orçamento pesar, considere parcelar, adiar para juntar recursos ou usar lentes de contato de melhor qualidade enquanto se planeja. Verifique registro da clínica, leia avaliações de pacientes, entenda o contrato, coberturas e prazos. Priorize transparência, comunicação clara e acesso fácil ao seu médico. Isso evita surpresas depois.


